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Testemunhos de beneficiários das Clínicas

por Alexandre.mourao publicado 08/03/2016 15h44, última modificação 08/03/2016 15h44

No processo de realizar o sonho de retornar ao Brasil, Clínicas do Testemunho foi para mim a acolhida afetuosa que tanto precisava. Foi onde pude sentir o quanto é importante abrir as portas e as janelas de minha memória. Meu testemunho junto à Anistia Internacional em Hamburgo, Alemanha e no Centro de Reabilitação de Presos Políticos em Copenhague, não surtiram efeitos tão profundos. Mas foi em Clínicas do Testemunho que o embate entre o medo e a coragem se intensificou. Este processo veio a transcorrer no Brasil, porque foi justamente neste país que a ordem arbitrária estabelecida me obrigou colocar as dores na sacola, lágrimas no cantil e partir triste dizendo assim: - Te deixo porque te amo!

(José de Souza Leal, Trecho de testemunho transcrito no relatório final da Clínica do Testemunho InstitutoProjetos Terapêuticosdo Rio de Janeiro).

 

O Estado nos tirou uma parte da nossa infância porque minha mãe não estava presente emocionalmente em muitos momentos. A segunda reparação que eu gostaria é de acompanhamento na Clínica do Testemunho para me ajudar a lidar com todo o material de fortes relatos que coletei durante este período. Eu gostaria de fazer uma ponte, para dar continuidade a nossa história. Escrever. Contar essa história. E oferecer isso para as próximas gerações da minha família... fazer uma ponte de memórias entre o silêncio dela e as minhas palavras - justo eu, que era uma menina muda.”

(Heliana Castro Alves, Trecho de testemunho transcrito no relatório final da Clínica do Testemunho InstitutoProjetos Terapêuticosdo Rio de Janeiro).

 

Num determinado momento eu vi um anúncio no jornal, da Comissão da Anistia, dizendo que estavam chamando ex-presos políticos e pessoas que soubessem de fatos para participar de um trabalho chamado Clínica do Testemunho. Eu não conseguia andar depois de uma sessão de tortura, eu fiquei de quatro pé no corredor eles pegaram uma coleira e colocaram no meu pescoço e o carcereiro me puxando e falava assim: “vem, vem”, o outro assobiando como se chamasse um cachorro e o major que comandava toda a estrutura tava alí me empurrando com a perna.  São situações no DOI-CODI extremamente humilhantes, que despersonalizam a pessoa na tortura, e eu sofri tortura durante 30 dias, e todo tipo de tortura. Eu comecei a pensar a contar isso que aconteceu comigo.”

(Emílio Ivo Ulrich, transcrição do testemunho apresentado no documentário “Travessia do Silêncio, Testemunho e Reparação” produzido pela Clínica do Testemunho InstitutoProjetos Terapêuticosde São Paulo).

 

“De repente, depois de muito tempo, você encontra um ambiente para conversar sobre esse assunto; eu nunca tive esse espaço em lugar nenhum. Todo lugar que eu passei na minha vida depois que eu saí da prisão foi de completo silêncio.”

(Emília Emiko Kita Lopes – transcrição do testemunho apresentado no documentário “Travessia do Silêncio, Testemunho e Reparação” produzido pela Clínica do Testemunho InstitutoProjetos Terapêuticosde São Paulo).

 

Eu acho que o grande trabalho da Clínica do Testemunho, que foi criada para oferecer a reparação psicológica direta aos afetados e também aos seus familiares, ele será mais eficaz nessa segunda camada e nas camadas que virão depois ; porque a ditadura não atingiu apenas os militantes, os resistentes, mas todo o tecido social.”

(Milton Bellintani, transcrição do testemunho apresentado no documentário “O Grito Silenciado”, produzido pelaClínica do TestemunhoSedes Sapientiae, de São Paulo).

 

Escrever este testemunho foi como dar um mergulho preciso e certeiro, rumo à mais profunda escuridão, ao mais mudo silêncio, ao mais angustiante dos medos, o medo de reencontrar aquela velha infância onde o 'faz de conta' era 'faz de verdade', o esconde-esconde nunca terminava, e a cabra cega, vendada, desorientada, sem rumo, era – sempre – eu.

(Marcia Curi Vaz Galvão – Trecho de testemunho transcrito no relatório final daClínica do TestemunhoInstitutoProjetos Terapêuticosdo Rio de Janeiro).

 

Por mais de dois anos, junto com vocês na Clínica do Testemunho do RJ, fui conseguindo aceitar, mesmo sob forte resistência e discussões durante as sessões terapêuticas com Cristiane e Marília,  a conviver com a minha mente e corpo, que além da alma, vitimada e mergulhada em um ódio visceral com os quais eu convivi com um "camufladissimo" sentimento de culpa - culpa sentida em relação a todos, e contra  qualquer tipo de poder........Me sentia culpada por desobedecer, por infligir, por negar, por rebelar-me, por tentar sobreviver, por festejar e até por dizer "obrigada"..... e, principalmente, ainda mais por contestar........ Antes, todas as culpas eram sabotadas, escondidas num crescente chamado "instinto de morte", que, pedagógica e clinicamente, nem agora requer ser esmiuçado como exemplo terapêutico de superação. Hoje, meu ódio permanece, na prática mais no sócio-político, rejeitando o óbvio da corrupção.......!!!! Hoje, o meu ódio já está "desentupido", destampado, desconstruído, também graças ao trabalho terapêutico de corpo aplicado pela técnica da Clinica do Testemunho - massagens, muita dor, desbloqueio e gargalhadas também......!!!!!!!

(Miriam Malina – Trecho de testemunho transcrito no relatório final daClínica do TestemunhoInstitutoProjetos Terapêuticosdo Rio de Janeiro).

 

Eu acho que estou aqui por conta da Clínica do Testemunho. Se não fosse a Clínica do Testemunho, eu não estaria ligado a esse grupo que hoje compareceu aqui; porque ali acho que se constituiu um coletivo com uma possibilidade muito grande de troca, de intercâmbio, de cruzamento de histórias de vida, de histórias pessoais, de histórias políticas.

(Carlos Botazzo (Baxo) – Testemunho apresentado no documentário “O Grito Silenciado”, produzido pelaClínica do TestemunhoSedes Sapientiae de São Paulo).

 

Eu acho que nossa força é: tem muitas coisas que desaparecem no desaparecimento, não é o corpo só, o corpo físico, acho que envolve muitas outras coisas. Então o que for possível a gente fazer para que a gente consiga com que algo apareça de novo, em qualquer esfera, e de qualquer forma, é importante

(Rafael de Abreu e Souza – perito forense do Grupo de Trabalho Perus – Testemunho apresentado no documentário “O Grito Silenciado”, produzido pelaClínica do TestemunhoSedes Sapientiae de São Paulo).