Superação

por Rafael.daher publicado 22/04/2015 16h12, última modificação 23/04/2015 16h04

REINSERÇÃO SOCIAL

A presença da família é importante durante todo o processo de tratamento da pessoa que apresenta dependência e fundamental também na etapa da reinserção social do ex-usuário de crack. Após o término da fase intensiva de tratamento e com o retorno ao meio familiar, o restabelecimento das relações sociais positivas está diretamente relacionado à manutenção das transformações.

Segundo Fátima Sudbrack, psicóloga e professora da Universidade de Brasília (UnB), um dos primeiros passos para o processo de reinserção social é evitar o isolamento do usuário. “É uma ilusão achar que só a internação vai resolver o problema. Na verdade, a desintoxicação é só uma parte do tratamento, pois o mais importante é a reinserção social. É importante que o dependente saiba com quem pode contar”, explica.

É fundamental que a família reconheça que ele está em um processo de recuperação de dependência, compreenda suas dificuldades e ofereça apoio para que ele possa reconstruir sua vida social. “Durante o tratamento os familiares e amigos podem e devem apoiar o dependente, se possível com ajuda profissional. O principal risco para um ex-usuário é se sentir sozinho, desvalorizado e sem a confiança das pessoas próximas”, diz Fátima.

A capacidade de acolher e compreender, estabelecer regras claras de convivência familiar, a demonstração de um interesse real em ajudar e de compromisso com a recuperação, além do respeito às diferenças e da manutenção de um ambiente de apoio, carinho e atenção, são atitudes que contribuem para melhorar a qualidade de vida do ex-usuário e ajudam na prevenção de recaídas. “De forma geral, no início é preciso exercer um controle maior sobre as atividades do indivíduo, manter uma rotina mais rigorosa, com acompanhamento. É preciso oferecer toda a ajuda possível, manter uma proximidade maior. O que faltou antes vai ter que ser fortalecido neste momento”, afirma o médico Mauro Soibelman, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É o chamado manejo firme e amigável, expressão usada por psiquiatras especializados no tratamento de dependentes químicos. “Não significa ser autoritário e bruto, apenas firme no propósito de manter o usuário longe do crack”, completa o especialista.

De acordo com Raquel Barros, psicóloga da ONG Lua Nova, é preciso dar espaço para a pessoa recomeçar. “Não se trata de fazer de conta que nada está acontecendo, mas de não focar a pessoa só nisso”, ressalta. A procura por um trabalho e a volta aos estudos deve ser incentivada. “É fundamental ocupar o tempo em que o dependente fumava crack com atividades saudáveis, seja com estudos, trabalho, esportes ou caminhadas”, diz Mauro Soibelman.

 

Hábitos sociais

Situações de convívio social fora do ambiente familiar tendem a ser desafiadoras para o ex-usuário de crack. Para a psicóloga Fátima Sudbrack, não é recomendado que a pessoa volte a freqüentar casas noturnas, bares ou mantenha contato com amigos que fazem uso de drogas. “Não podemos pedir que a pessoa abandone tudo o que fazia, mas é bem difícil retornar a esses lugares e não voltar a consumir a droga”, diz.

O uso de drogas lícitas, mesmo de forma moderada, não é recomendado pela maioria dos especialistas. “O cigarro é mais tolerável, apesar de controverso. Mas o álcool é um grande problema. Mesmo em baixas doses, a bebida alcoólica afrouxa as defesas do usuário e se torna um facilitador para recaídas”, explica Soibelman. Para a psicóloga Fátima Sudbrack, o dependente tende a compensar a ausência do crack com outra droga mais acessível. “Fazendo o uso de álcool e outras drogas ele não vai se recuperar, mas apenas buscar satisfação em outro produto”, diz.

Projetos bem-sucedidos

Oferecer um ambiente seguro e acolhedor, que facilite a socialização e a busca por equilíbrio, faz parte da estratégia das comunidades terapêuticas e das associações voltadas ao tratamento de dependentes de crack e outras drogas. A transformação psicossocial promovida por essas instituições envolve o aprendizado de novos valores, comportamentos, capacidades, hábitos e responsabilidades, de modo a fornecer os instrumentos necessários para a reinserção social. Essas dinâmicas e intervenções buscam incentivar o usuário a retomar a atividade profissional, relações familiares e o exercício da cidadania, além de ajudá-lo a construir um projeto de vida.

Nesta seção, apresentamos o trabalho de três instituições reconhecidas pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) como referências no atendimento de usuários de crack e outras drogas: Lua Nova (Sorocaba - SP), Instituição Padre Haroldo (Campinas – SP) e Consultório de Rua (Salvador – BA).

LUA NOVA

Acolher, recuperar e ensinar jovens mulheres de 13 a 25 anos, gestantes ou mães em situação de risco social, a retomar a vida, é a proposta da Associação Lua Nova, organização não governamental com sede em Sorocaba, interior de São Paulo. Mães e adolescentes que se prostituem, usam drogas, não possuem moradia fixa ou estão em situação de rua fazem uma parceria com a instituição: elas aprendem um ofício, trabalham e assumem funções bem definidas, pelas quais são remuneradas. Com essa nova dinâmica de vida, quebram o isolamento e têm a possibilidade de fortalecer os vínculos afetivos com seus filhos e de formar crianças saudáveis fisicamente e emocionalmente.

Por que “Lua Nova”? O nome nasceu da vontade de mostrar os talentos das jovens e seus filhos, que não são vistos, mas existem. Segundo Raquel Barros, psicóloga e fundadora da Lua Nova, a instituição auxilia na recuperação de dependentes de drogas a partir do fortalecimento da auto-estima, do convívio social, do exercício da cidadania e do direito de "dar luz" a mães responsáveis, reforçando o vínculo com os filhos. “O principal em um trabalho com o usuário de crack é valorizar suas habilidades e potencialidades e fazer com que ele as vivencie concretamente. Como todo mundo, o dependente tem muitos potenciais, mas que estão invisíveis para ele. Valorizar o que estas pessoas têm de positivo é uma forma de oferecer a sensação de ‘ser possível’”, afirma.

As mães que procuram a associação geralmente são encaminhadas pelo Conselho Tutelar de suas cidades de origem, Varas de Infância e Juventude, Igrejas e outras instituições. Passado o período de adaptação, são encaminhadas para os projetos de geração de renda da associação - Brinde da Lua, oficina Criando Arte, panificadora Lua Crescente e Empreiteira Escola – onde exercem suas habilidades e a capacidade de fazer escolhas, tomam decisões que auxiliem no desenvolvimento pessoal e social e, com o tempo, assumem a gestão participativa dos projetos, o que contribui para que enfrentem a vida e as dificuldades de forma responsável.

O projeto Brindes da Lua reaproveita resíduos de processos produtivos doados por indústrias têxteis e confecções para a fabricação artesanal de chaveiros, camisetas e materiais artísticos e educativos. Na Oficina Criando Arte, as integrantes da Lua Nova aprendem não só a confeccionar bonecas como também recebem conteúdos de alfabetização não-formal e empreendedorismo, o que facilita a inserção das jovens no mercado de trabalho e na comunidade. A Panificadora Lua Crescente capacita aprendizes na produção e venda de biscoitos artesanais, e presta serviço de buffet para eventos de empresas e organizações do terceiro setor e forma multiplicadoras que atuam tanto internamente como na comunidade local. A Empreiteira Escola forma jovens mulheres para trabalharem na construção civil e, ao mesmo tempo, permite que elas sejam multiplicadoras da tecnologia de construção de casas para a população de baixa renda.

 

CONSULTÓRIO DE RUA

Psicólogo acompanha atividades com crianças. Na imagem, a criança faz um desenho sob a orientação do profissional Crédito da imagem: Consultório de Rua/Divulgação

O Consultório de Rua surgiu no fim da década de 1990, na cidade de Salvador (BA), para atender à população em situação de risco e vulnerabilidade social, principalmente crianças e adolescentes usuários de álcool e outras drogas.

A experiência do Consultório de Rua de Salvador é referência para novos projetos "Consultório na Rua" previstos no Plano Crack, é possível vencer, o qual consolida sua atuação para o encaminhamento de usuários de crack e outras drogas que vivem nas áreas de maior risco social nos espaços urbanos.

No Consultório de Rua, uma equipe formada por médicos, psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos e pedagogos presta atendimento aos dependentes químicos diretamente na rua, com o suporte de um ambulatório móvel. A estratégia de abordagem é inspirada na ONG francesa Médicos do Mundo, que atende moradores de ruas e prostitutas em um ônibus equipado como se fosse uma clínica.

Após um mapeamento para descobrir onde estão concentrados os usuários de drogas, os profissionais fazem a chamada aproximação, intervenção com a população local que pode levar de semanas a meses. “É preciso dar um tempo para as pessoas se sentirem seguras, entenderem que essa equipe de rua está lá para ouvi-las, orientá-las e cuidar delas”, conta Andrea Leite, assistente social da Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (CETAD) e coordenadora do Consultório de Rua.

Após ganhar a confiança dos freqüentadores do local e distribuir kits com preservativos, curativos, medicamentos, cartilhas e material de conscientização sobre o uso de drogas, a equipe do Consultório de Rua faz um intenso trabalho educativo e psicossocial com os freqüentadores da região. “Quem conduz essa intervenção é o próprio usuário. As negociações levam em consideração se a pessoa quer ou não receber informações e orientações dos profissionais. Se houver confiança e vontade, surgem dúvidas, assuntos sobre família e drogas, sempre com respeito às escolhas do usuário”, diz Andrea.

De acordo com a assistente social, o foco do projeto não é que os usuários parem de usar drogas ou aceitem participar de um tratamento, mas que isso seja uma conseqüência do trabalho feito com eles na rua, uma vontade que deve partir do indivíduo e não da equipe profissional. Caso o usuário opte por fazer o tratamento no CETAD, terá à disposição uma equipe de psicólogos e psiquiatras e participará de grupos terapêuticos. “A idéia é reinserir o usuário na sociedade através desses trabalhos, porque além dele ser um usuário de droga, ele é um cidadão, e cidadania não se perde. Olhar para aquele indivíduo com respeito e fazê-lo sentir ser visto como cidadão é uma das missões mais importantes do Consultório de Rua”, reforça Andrea Leite.

Para ela, o que mostra que o projeto Consultório de Rua dá certo não é o número de dependentes que deixaram de usar a droga. “Para o projeto, dar certo não é apenas fazer com que as pessoas larguem a droga ou saiam da rua. Consideramos uma vitória ver o número de pessoas que se perceberam enquanto sujeitos, pararam de fumar crack em latinhas ou de dividir o cachimbo, deixaram de ter relação sexual desprotegida, pedem para fazer o teste de HIV ou estão inseridas em alguma outra atividade que não seja apenas o consumo da droga”, diz a assistente social.

 

PADRE HAROLDO

A Instituição Padre Haroldo é uma organização não governamental (ONG) fundada em 1978, em Campinas, interior de São Paulo. Com mais de 30 anos de existência, a instituição já recebeu mais de 13 mil residentes que passaram por tratamento para questões associadas ao uso de crack e outras drogas.
A entidade atua em três frentes de trabalho: prevenção e profissionalização, enfrentamento à situação de rua e tratamento terapêutico da dependência química na abordagem comunidade terapêutica. Com base em três pilares (espiritualidade, conscientização e trabalho), as ações da Instituição Padre Haroldo prevêem a integração entre o residente, seus familiares e uma equipe interdisciplinar formada por médico clínico, psiquiatra,psicólogos, dentista,terapeuta ocupacional, educador físico, enfermeira, nutricionista, instrutor de artes,educadores  e assistentes sociais.
O trabalho de prevenção e profissionalização já vem sendo desenvolvido há 15 anos. Atualmente, 200 adolescentes que vivem em situação de risco social e pessoal e que estão em fase de maior risco para o consumo de drogas, vêm sendo atendidos. Em parceria com escolas da região, a instituição oferece, sempre no contraturno das aulas, oficinas socioeducativas - de reflexão e cidadania, teatro, esportes e música - para jovens de 12 a 14 anos. Aos 15 anos, os adolescentes são encaminhados para cursos profissionalizantes, como eletricista, instalador residencial, informática e novas tecnologias, práticas de escritório e inglês on-line.
O trabalho de enfrentamento à situação de rua é voltado a crianças e adolescentes e mantém atividades tanto no espaço da rua, como em oficinas internas. O objetivo é romper o ciclo de vulnerabilidades a que os jovens estão expostos a partir da construção de auto-estima, do reconhecimento de potencialidades, da percepção crítica da realidade e do desenvolvimento da cidadania e da integração social. O trabalho busca reduzir o consumo de drogas, envolvimento em situações de violência, prostituição, gravidez precoce e a incidência de doenças sexualmente transmissíveis.

 

Tratamento terapêutico

O tratamento terapêutico da dependência química na abordagem comunidade terapêutica tem duração média de seis meses, em regime de internação de acordo com o plano terapêutico individualizado. Nos quatro primeiros meses, o usuário passa por um processo de desintoxicação por meio de atividades físicas e alimentação balanceada, com atendimento médico, psicológico e odontológico, se necessário. A instituição trabalha dentro do modelo de abstinência total. Neste período, também há o trabalho de conscientização do indivíduo sobre os prejuízos causados pelo consumo de drogas, sobre a importância de mudar o estilo de vida e gerenciar comportamentos, pensamentos e sentimentos. 

O apoio terapêutico visa auxiliar o dependente a adquirir autoconhecimento, trabalhar emoções e sentimentos, desenvolver recursos internos para prevenir a recaída, além de aprender o significado do trabalho e da disciplina. Faz parte desse processo a participação na chamada laborterapia, que ajuda o residente a desenvolver hábitos como pontualidade, responsabilidade, persistência, tolerância e cooperação, além de minimizar problemas com autoridade e ensinar a lidar com críticas, frustrações e tensões. Por se tratar de uma instituição de cunho religioso,no período de internação de internação também promovem meios para o dependente desenvolver a espiritualidade e resgatar valores e princípios espirituais. A família  tem papel ativo na recuperação do dependente, com participação em terapias de grupo e individuais. "Todos os familiares que nos procuram são encaminhados para os grupos de mútua ajuda. A família também deve participar mensalmente de sessões de terapia familiar", afirma Laura Fracasso, psicóloga e gestora técnica da Instituição.

Os dois últimos meses são dedicados à reinserção social, quando o dependente participa de cursos profissionalizantes, palestras educativas e preventivas e começa a retomar a vida social, com o retorno gradativo ao ambiente familiar, atividades esportivas, laborais,culturais, religiosas e de lazer, sempre com acompanhamento.

 

HISTÓRIAS DE SUPERAÇÃO

Com apoio social, afetivo e ajuda profissional, é possível superar a dependência em crack. As histórias que você vai ver nos dois vídeos a seguir mostram que, apesar das dificuldades, é possível sair de anos de dependência química para uma vida cheia de perspectivas para o futuro. Nos depoimentos, você verá que oferecer oportunidades de recuperação e reinserção social a ex-usuários é um passo fundamental para o sucesso do tratamento.

Nos vídeos e áudios a seguir dois ex-usuários de crack contam suas histórias de superação.

 

FAMÍLIA UNIDA

Vulnerável, estigmatizado e, muitas vezes, marginalizado, o dependente de crack precisa receber atenção integral, em especial à sua saúde física e mental. Para que um familiar possa ajudar um dependente químico, é fundamental compreender que a dependência é uma doença e reconhecer a necessidade de buscar ajuda profissional. Manter a família unida e em condições de prestar apoio afetivo e social ao dependente também é indispensável para o sucesso do tratamento.

 

O QUE NÃO FAZER

Para prestar apoio a um dependente de crack, é fundamental saber a melhor forma de agir para incentivar a recuperação. Por excesso de zelo ou até mesmo por desinformação, muitos parentes e amigos podem adotar atitudes prejudiciais ao progresso de uma pessoa que tenta interromper o uso da droga - agir com truculência, por exemplo, é uma maneira inadequada de lidar com a situação.

Força de vontade e perseverança são essenciais para todos os envolvidos. “O apoio afetivo e social é fundamental. A família, no caso de uso de substâncias psicoativas, deve se livrar de preconceitos, reconhecer que as pessoas reagem de modos diferentes a diferentes substâncias e se colocar ao lado do paciente e não contra a droga, desconsiderando as circunstâncias sociais, pessoais e a própria substância consumida”, diz Antonio Nery Filho, professor e psiquiatra do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (CETAD), da Universidade Federal da Bahia.

Psicóloga da ONG Lua Nova de Sorocaba (SP), Raquel Barros tem a mesma opinião. “Para administrar as crises, a família deve saber ser firme e persistente nos limites, trazer para a realidade aquele usuário e com ele traçar planos buscando valorizá-lo, assim como a relação entre eles”, diz. “Os familiares precisam de suporte, mas eles devem ter na cabeça que quem usa a droga é o dependente, não eles”, ressalta Andrea Leite, assistente social do CETAD/UFBA e coordenadora do Consultório de Rua.

O afastamento e isolamento do usuário também prejudica o processo de recuperação. “Por mais que o familiar pense que o dependente não está nem aí para ele, é bom ficar junto. E esse apoio não deve vir só dos mais próximos, mas também fora de casa, com oportunidades institucionais, por exemplo. Às vezes a pessoa não vê grandes chances lá fora, como emprego, e foca ainda mais na droga“, completa Andrea Leite.

Apoiar um dependente de crack também requer ajuda de profissionais e ações que mostrem a ele que existe algo que possa lhe dar prazer tanto quanto a droga. “Fizemos uma ação com o futebol e, ao praticar o esporte, os dependentes tiveram uma amostra de outra coisa que podia dar prazer. Ninguém falou para pararem de usar a droga, eles que descobriram isso. Uns jogavam só dez minutos, depois vinte, trinta, e daí a coisa toda evoluía para eles”, diz Andrea.

 

RECUPERAÇÃO

Professor colaborador do Departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), o psiquiatra José Manoel Bertolote ocupou, durante 20 anos, o cargo de coordenador da equipe de transtornos mentais e neurológicos da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Genebra. Consultor da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), pesquisador e especialista na prevenção e tratamento de usuários de drogas psicotrópicas, nesta entrevista ele fala sobre as reais chances de recuperação de dependentes de crack, avalia a importância da reinserção social e mostra porque é preciso mais que a desintoxicação para reduzir o índice de recaídas. “A desintoxicação, apenas, tem seu papel, no sentido de reduzir os danos a que o usuário está sujeito, mas é uma contribuição modesta”, avalia.

 

É possível abandonar a dependência de crack por conta própria, sem ajuda especializada?

Teoricamente, sim. Porém, isso depende de vários fatores, entre os quais o grau de dependência e o nível de apoio social e familiar que o dependente possui. O sucesso de qualquer tipo de tratamento para uma dependência química passa, em grande parte, pela vontade do usuário de se manter afastado da droga (abstinência). Sem isso, nenhuma proposta terapêutica funcionará. Entretanto, há que se considerar o fenômeno da comorbidade, ou seja, a coexistência no mesmo indivíduo de outros transtornos mentais (por exemplo, depressão, psicoses, dependências de álcool, transtornos graves de personalidade etc.) que, caso não sejam tratados concomitantemente, podem comprometer a recuperação Um diagnóstico adequado permitirá traçar uma abordagem terapêutica mais eficaz, que esteja ajustada às características do paciente.

É possível levar uma vida normal após o tratamento? O dependente pode freqüentar os mesmos locais que freqüentava antes e manter o mesmo círculo de amizades, por exemplo?

Sim. Se o "antes" se referir a antes do uso do crack, certamente. Entretanto, freqüentar os mesmos ambientes e manter contato com as mesmas pessoas com quem usava o crack inviabiliza a recuperação.

Como a família deve proceder antes, durante e ao término do tratamento? Como agir em situações sociais, como festas familiares?

A família deve estar ao lado do usuário, apoiando-o - sem se submeter a chantagens e tampouco submetê-lo a pressões indevidas e ameaças infundadas. A firmeza e coerência de atitudes dos familiares são essenciais. Mas não existe uma fórmula que se possa oferecer para um usuário de crack ou para a família. Tirar o indivíduo das companhias e do ambiente é uma solução, mas não a única. Se o dependente permanece em sua residência durante o tratamento dificilmente será possível afastar-se totalmente, pois vai precisar muito acompanhamento da família, muito monitoramento, o que nem sempre é possível.

O dependente em tratamento pode fazer uso moderado de álcool, em situações sociais?

Em princípio, sim, desde que não coexista também uma síndrome de dependência do álcool. Desde que ele não seja dependente de álcool, ele consegue tomar uma dose e parar por ali. Isso não leva necessariamente o indivíduo a usar crack. A questão é que grande parte dos usuários de crack é dependente ou usuário pesado de álcool

Um dependente de crack consegue se recuperar completamente da dependência? Quais são as chances reais de sucesso do tratamento?

A dependência envolve complexos mecanismos cerebrais, psicológicos e sociais. Com o tratamento adequado a cada caso, e em presença de uma real vontade de deixar de usar a droga, a recuperação é perfeitamente viável.

O que fazer quando o dependente não quer parar de usar a droga e não aceita ajuda?

Não se pode submeter ninguém a um tratamento involuntário, a menos que esteja intoxicado e representando uma ameaça e um risco para si mesmo e para os demais. Nestes casos pode-se conseguir uma ordem judicial de tratamento e, eventualmente, internação.

Como avaliar os resultados de um tratamento? Como saber se o usuário está recuperado da dependência?

O resultado do tratamento do crack é baseado em dois critérios fundamentais: a abstinência da droga e o grau de reinserção social.

Qual é o segredo, a chave do sucesso para uma superação real?

A vontade de se afastar e permanecer afastado da droga, o apoio social (da família e dos amigos) e um bom sistema sócio-sanitário, que responda às reais necessidades do dependente.

 

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